Se acorda com uma preguiça enorme, a cama pede os cinco minutinhos. Ela levanta, se espreguiça, toma a vitamina, põe o tênis e vai correr na praia, se encontrar a tal velhinha pode até apostar corrida. De noite vai para o sushi mais comentado dos últimos dias, come até passar mal. Ela abraça todo mundo, pega o ônibus que quer na hora que quer e enfim está livre das injeções, transfusões e blábláblás. Quando crescer quer ter uma casa com cheiro de madeira velha, no Alto da Sé, com uma rede vermelha e um cachorro, que vai prender nos fins de semana, quando tiver almoço de família. Não vai ter medo de dirigir, mas vai ter medo de curvas, ladeiras e alta velocidade. Vai praticar pilates e cantar no coro, vai enfim saber ler as partituras. Ela vai ser uma mulher apaixonada, vai ter dois filhos, com nomes diferentes porém bonitos. Vai viajar o mundo todo ou quase todo, e de cada lugar vai trazer milhares de quinquilharias que vai espalhar pela casa, junto com o resto da bagunça; vai ter que decidir entre trabalhar aqui ou fora, ganhar pouco ou muito, ficar mais tempo com os filhos ou não. Sua mãe vai ligar todos os dias e seus irmãos vão estar iguais, só que mais velhos e gordos. Vai trabalhar com amor e ser voluntária, também com muito amor. Vai ter mais paciência e vai aproveitar os momentos mais gostosos da vida e escrever sobre eles. Vai dançar música lenta sem música lenta e pedir massagem nos pés no fim do dia. Ela vai fazer um milhão de coisas sem poder e sempre vai dizer vai dizer que pode. Vai atender ao chamado da sua missão mais importante e respirar fundo com um ar de missão cumprida. Porque enfim ela pode.
Ela pode. Eu posso.
>>Ontem estava assistindo um programa, um diário do câncer de uma mulher, onde ela falava sobre as dificuldades do tratamento, sobre as coisas que estava deixando de viver com seus filhos e sobre ter perdido os seios e o cabelo. Num certo momento, enquanto seu filho, de mais ou menos quatro anos a ajudava a se arrumar, ele disse: Mãe, um dia seu cabelo vai crescer de novo e você não vai precisar de peruca - ela concordou com ele - mas seu peito não vai mais crescer, né mãe? Porque você só tinha dois, e eles não vão nascer de novo.
Ela falava sobre como tinha sido violenta a mudança depois da perda dos seios, como se sentia sobre usar próteses e perucas, disse que se sentia falsa.
As palavras daquela mulher me fizeram pensar durante muito tempo, em como essa doença mutila de várias formas, porque muitas coisas se curam com o tempo, ou passam desapercebidas quando se está muito ocupada, mas outras nunca saem da mente, nem por um minuto. Ela falava sobre dizer a verdade: eu não estou bem, e como isso era um desabafo. Na última quimio comemorou com bolo e chorou na primeira sessão de radioterapia. Quando ela falava de sentir uma solidão enorme quando entrava naquela sala eu me lembrava que senti aquilo muitas vezes fazendo a mesma coisa e imagino que isso acontece com quase todos. O cansaço é grande e a luta também, hoje tem mais uma quimio, ou melhor, menos uma.<<
"E sabemos que todas as coisas contribuem juntamente para o bem daqueles que amam a Deus, daqueles que são chamados segundo o seu propósito." Romanos 8.28

eu e minha futura medula