sábado, 21 de novembro de 2009

Oi dia ensolarado!

É sábado de manhã, a praia está cheia e eu estou aqui no meu cubículo vermelho escrevendo sobre as coisas da vida. Durante a semana passei pelo menos uma hora antes de dormir todos os dias só pensando que as postagens não deveria ser tão depressivas e pensando na dimensão das coisas que têm acontecido nos últimos tempos. Tenho pensado demais e a verdade é que isso não tem feito bem para minha paciência. Ontem escutei palavras muito sábias sobre ansiedade e a verdade é que elas pareciam ter sido pronunciadas especialmente para mim. Entreguei a Deus as minhas preocupações e incertezas, que são muitas. Me dêem um desconto, só tenho 22 anos. Enquanto continuar me preocupando com os dias que ainda não chegaram, os dias que estão acontecendo nunca serão plenos e essa é uma lição que tenho aprendido da pior forma.
Hoje quero desenterrar a lista de coisas que sempre quis fazer mas nunca fiz por falta de tempo ou por qualquer outra coisa, hoje é um tempo de realizações, eu não quero mais esperar pelo ano que vem para começar. Vou escrever as cartas que sempre quis escrever, dançar a música e falar que te amo. Não vou ter medo da cabeça careca e nem vou ficar triste porque hoje se completam dois anos da descoberta do câncer. Vou ficar feliz porque há dois anos luto a luta mais difícil da minha vida e ainda estou aqui contando a hitória, forte. Hoje é o tempo de realizar o futuro, sempre escutei isso, mas só agora eu entendo.
Agora eu entendo.

Se você está lendo esta postagem e está se perguntando se você deveria estar fazendo a mesma coisa, eu digo que sim, deveria. Então vá e viva.

"Não estejais inquietos por coisa alguma; antes as vossas petições sejam em tudo conhecidas diante de Deus pela oração e súplica, com ação de graças. E a paz de Deus, que excede todo o entendimento, guardará os vossos corações e os vossos sentimentos em Cristo Jesus." Filipenses 4.6 e 7




pegando um trânsito danado

terça-feira, 17 de novembro de 2009

Mas eu pedi com emoção

O tempo nunca foi tão curto. Acho que todos vocês perceberam isso. Mas eu só percebi quando achei que dormindo menos iria conseguir mais alguns minutos pra fazer qualquer que eu achasse importante. E no fim não era. Uma vez ouvi um amigo meu dizer que dormir era desperdício de tempo. A verdade é que estamos desesperados, porque essa é única coisa que nem eu ou você podemos controlar. Isso pesou mais de uns meses até agora. Eu não tenho controle nenhum sobre o tempo e sobre as coisas que ele guarda para mim. Devo continuar vivendo minha vida como se nada estivesse acontecendo, ou achar que esses minutos finais são iguais aos dos filmes, realmente são os finais, onde tudo dá certo, mas só no último minuto, cheio de drama e suspense. Imagine o Sr Myiagi dizendo "Larissa, só temos cinco minutos até sua medula 'pegar' vamos torcer para qua nada dê errado", aí eu começo a ter uma falta de ar inexplicável e tudo alí vira um emocionante episódio de Plantão Médico. Com mais tempo todo drama fica insurpotavelmente demorado. O meu começou desde julho. Então, está insuportavelmente demorado.

Gente legal, faltam poucos dias até minha ida para São Paulo. Viajo no comecinho de dezembro, passarei o meu querido Natal e Ano Novo no meu cubículo sem germes, com certeza um Natal mais seguro e um Ano Novo mais branco. Logo vou me despedir dos cabelos cultivados com amor e carinho e minha roupas se limitarão aos pijamas coloridos. A verdade é que este é o momento que mais espero e mais temo. Agora não posso mais fugir,nem dizer que não quero, só posso dizer que, sim, eu tenho medo do que está por vir, mas mesmo assim vou pular, vou fechar meus olhos e vou pular. O vento vai ser frio e não haverão cordas para me segurar. Por que lá em baixo, lá longe está o que espero há muito tempo. Pulo para a vida nova, se assim Deus permitir.

"Sonda-me, ó Deus, e conhece o meu coração; prova-me, e conhece os meus pensamentos." Salmos 139. 23




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domingo, 8 de novembro de 2009

Ao câncer que mudou minha vida,

Não sei há quanto tempo está comigo, ou melhor, em mim. Você me torturou com dores terríveis durante quase dois anos. Por sua causa tomei vinte e seis sessões de quimioterapia, que juntos consumiram trinta e cinco dias da minha vida, cansativos e enjoados dias. Por sua causa perdi meus cabelos, sofri longe da minha família, me senti só, deformada, estranha e todas as outras coisas terríveis que se podem sentir mas que não tenho palavras para descrever. Fui furada incontáveis vezes, quase perdi minha perna, fiz dezessete sessões de radioterapia e quase não tenho mais veias. Porque você reapareceu vou fazer outro transplante. Porque você reapareceu não durmo mais como antes. Penso em você todos os minutos do meu dia e sonho com o dia da sua partida. Também por sua causa conheci pessoas maravilhosas e aprendi mais sobre o amor do que em toda a minha curta vida. Por sua causa eu pude aprender a dar o valor merecido às coisas mais simples da vida. Por sua causa eu tenho amigos para toda a vida. Você me mostrou o que estava errado e todos os dias me faz aprender mais um pouco sobre o que não quero e sobre o que não vejo. Por sua causa meus sonhos são maiores ainda. Você me fez querer viver mais ainda. Quando você partir eu não vou sentir falta, nem um pouco. Pelo contrário, chorarei de alegria. Você mudou minha vida e me curou de outras doenças, por isso serei eternamente grata .

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Para todas as dúvidas que movem as nossas vidas, sempre haverá o dia do completo alívio. Quando você vai acordar e dar o sorriso de seja-bem-vindo-dia-maravilhoso. Depois de apanhar muito, aprendeu que esperar esse dia chegar pode demorar demais. E pode ser doloroso também. Hoje pode não ser o dia perfeito que esperou ou que sonhou mas vai ser melhor do que ontem.

"Tenho-vos dito isso, para que em mim tenhais paz; no mundo tereis aflições, mas tende bom ânimo; eu venci o mundo." João 16. 33

A fé cura as doenças mais terríveis, até aquelas que não vemos.

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Nessa semana perdemos mais uma guerreira.A causa de Aline Coelho também é nossa. A dor da família e amigos também é nossa. Você pode ser a chance que alguém sempre esperou. Não deixe para depois, seja doador de medula.


Terça-feira foi a última quimio GND. As saídas sempre estiveram lá. Era só seguir o bonequinho vermelho.

sexta-feira, 30 de outubro de 2009

blá-blá-blás e uma foto antiga

Não tenho fome como antes, não durmo bem como antes, as forças não são como as de antes, e faz três semanas que não tomo quimio, a gripe realmente veio com tudo e foi embora com dois quilos indesejáveis porém necessários. "A vida não é justa, não é?" já dizia o leão do desenho... mas tudo é uma questão de perspectiva e paciência, caros leitores. Tive tempo de me recuperar e os exames tiveram os melhores resultados desde que comecei a quimio nova. Leucócitos, plaquetas e hemácias da melhor forma possível.
A vida não é injusta, eu é que reclamo demais.
Enquanto escrevo essas palavras tento me convencer que tudo vai bem, que o cansaço e a dor fazem parte e que o saco cheio pode aguentar mais um pouco. Não tenho o problema maior que o de ninguém se é isso que você pensa quando lê essas palavras, problemas têm quem acha que não têm problemas. Sempre teremos problemas e coisas para melhorar. Eu tenho muitas coisas para melhorar e uma delas é parar de pensar no tempo que tenho para melhorar. A vida não é curta nem longa, ela tem o tempo exato para você aprender as coisa que tem que aprender, mudá-las, ou não, e assim mudar a vida dos outros, ou não. Pensar diferente seria egoísmo demais... se posso dividir as alegrias porque não poderia dividir as angústias, nada mais justo.

>>

Queridos e queridas, depois de todas as vezes que escrevi, reescrevi e apaguei essa postagem, de todos os dias que não escrevi porque não tinha o que falar, porque simplesmente não tinha como explicar as coisas mais insanas que se passam nessa cabeça. Me vejo como a criança que vai dar um mergulho, que sabe que precisa encher os pulmões com a maior força que consegue, ela sabe que vai precisar de ar, mas sabe também que precisa ficar em baixo d'água o maior tempo possível, menos do que isso não adianta. Mas antes de inspirar, a empurram pela cabeça e ela solta todo o ar, num mergulho desesperador. Soltei todo ar dos pulmões e não tive ar para aguentar mais alguns segundos submersa. A sensação é de que esses segundos são os mais longos da minha vida. Da minha feliz, complicada e estranha vida.

"Qual de vós, por ansioso que esteja, pode acrescentar um côvado ao curso da sua vida?" Lucas 12.25



Lolota disse que eu estava com medo do mar

terça-feira, 6 de outubro de 2009

Ela, o futuro, a medula e milhões de coisas

Se acorda com uma preguiça enorme, a cama pede os cinco minutinhos. Ela levanta, se espreguiça, toma a vitamina, põe o tênis e vai correr na praia, se encontrar a tal velhinha pode até apostar corrida. De noite vai para o sushi mais comentado dos últimos dias, come até passar mal. Ela abraça todo mundo, pega o ônibus que quer na hora que quer e enfim está livre das injeções, transfusões e blábláblás. Quando crescer quer ter uma casa com cheiro de madeira velha, no Alto da Sé, com uma rede vermelha e um cachorro, que vai prender nos fins de semana, quando tiver almoço de família. Não vai ter medo de dirigir, mas vai ter medo de curvas, ladeiras e alta velocidade. Vai praticar pilates e cantar no coro, vai enfim saber ler as partituras. Ela vai ser uma mulher apaixonada, vai ter dois filhos, com nomes diferentes porém bonitos. Vai viajar o mundo todo ou quase todo, e de cada lugar vai trazer milhares de quinquilharias que vai espalhar pela casa, junto com o resto da bagunça; vai ter que decidir entre trabalhar aqui ou fora, ganhar pouco ou muito, ficar mais tempo com os filhos ou não. Sua mãe vai ligar todos os dias e seus irmãos vão estar iguais, só que mais velhos e gordos. Vai trabalhar com amor e ser voluntária, também com muito amor. Vai ter mais paciência e vai aproveitar os momentos mais gostosos da vida e escrever sobre eles. Vai dançar música lenta sem música lenta e pedir massagem nos pés no fim do dia. Ela vai fazer um milhão de coisas sem poder e sempre vai dizer vai dizer que pode. Vai atender ao chamado da sua missão mais importante e respirar fundo com um ar de missão cumprida. Porque enfim ela pode.

Ela pode. Eu posso.


>>Ontem estava assistindo um programa, um diário do câncer de uma mulher, onde ela falava sobre as dificuldades do tratamento, sobre as coisas que estava deixando de viver com seus filhos e sobre ter perdido os seios e o cabelo. Num certo momento, enquanto seu filho, de mais ou menos quatro anos a ajudava a se arrumar, ele disse: Mãe, um dia seu cabelo vai crescer de novo e você não vai precisar de peruca - ela concordou com ele - mas seu peito não vai mais crescer, né mãe? Porque você só tinha dois, e eles não vão nascer de novo.
Ela falava sobre como tinha sido violenta a mudança depois da perda dos seios, como se sentia sobre usar próteses e perucas, disse que se sentia falsa.
As palavras daquela mulher me fizeram pensar durante muito tempo, em como essa doença mutila de várias formas, porque muitas coisas se curam com o tempo, ou passam desapercebidas quando se está muito ocupada, mas outras nunca saem da mente, nem por um minuto. Ela falava sobre dizer a verdade: eu não estou bem, e como isso era um desabafo. Na última quimio comemorou com bolo e chorou na primeira sessão de radioterapia. Quando ela falava de sentir uma solidão enorme quando entrava naquela sala eu me lembrava que senti aquilo muitas vezes fazendo a mesma coisa e imagino que isso acontece com quase todos. O cansaço é grande e a luta também, hoje tem mais uma quimio, ou melhor, menos uma.<<

"E sabemos que todas as coisas contribuem juntamente para o bem daqueles que amam a Deus, daqueles que são chamados segundo o seu propósito." Romanos 8.28



eu e minha futura medula

sexta-feira, 25 de setembro de 2009

Caros e caras,

Costumo dizer que o hospital é a minha segunda casa, aquela que não se escolhe, você só vai e pronto. Minhas idas para injeções, exames e outras coisas que sempre envolvem agulhas e não necessariamente bons resultados sempre abrem meus olhos para alguma coisa nova. Quando não é uma família chorando a perda de uma pessoa querida na porta da urgência, é o novo prato do cardápio do novo restaurante, muito mais organizado e com menos cara de hospital. Algumas coisas se tornam banais, cria-se uma capa protetora e com o tempo fica menos doloroso ver o sofrimento dos outros. Me lembro das idas a radioterapia e das histórias que escutava lá. Parece existir uma necessidade de compartilhar os sofrimentos, realmente é uma necessidade. Já ouvi histórias de fazer qualquer sofrimento paracer pequeno e comentários que dispensam comentários, mas todos pareciam ser um grito de desespero ou desabafo: eu preciso contar. E foi da mesma forma durante o transplante, onde as histórias eram bem parecidas e só mudavam o sotaque. Se você está no hospital todo dia deve estar preparado para essas coisas, qualquer dia lançarão o Guia Prático de Sobrevivência em Hospitais. Como estacionar no lugar estratégico para andar menos, com quem e como falar para conseguir as coisas nas horas certas, com quem reclamar, por onde nunca passar e com quem nunca falar. Mas no fim somos todos pacientes não é mesmo?

>>Fica difícil não imaginar o câncer como um estado permanente. Depois de tantas noites pensativas na expectativa de um dia acordar sem ter que pensar nos leucócitos ou morrer de medo quando alguém espirra do meu lado acho que sem querer incorporei muito disso na pessoa que em breve parte para a próxima etapa, a cura.
Mais essa história vocês já escutaram, não é mesmo?

...

Lolota versão 4.2, lançada no último domingo, com direito a bolo e muita conversa, em alto volume. Família é pra isso também. Se alguém precisar de animadores para festas tenho ótimos contatos.

"Agora estarão abertos os meus olhos e atentos os meus ouvidos à oração deste lugar." 2 Crônicas 7.15



Os contatos

domingo, 13 de setembro de 2009

O que você faz?

Oi amigos leitores,

Semana passada assisti a entrevista de Eduardo Marafanti no Jô, a mais recente, e uma frase que ele disse me marcou muito, durante toda essa semana. Ele falava sobre quando teve a notícia da doença, no seu caso leucemia mielóide crônica, e ele falou que ali "perdeu o chão", por que ali tiraram sua capacidade de sonhar, e disse que o ser humano é movido pelos sonhos. Disse que a partir dalí tudo se tornou pequeno, a vida se tornou pequena. Ele hoje está curado e foi um dos fundadores da ABRALE. Quando Eduardo descobriu a doença não fazia idéia de que mudaria a história de tantas pessoas com a mesma doença que ele.
Quando uma coisa tão absurda acontece na sua vida, algo sobre o qual você não tem controle, algo que você não escolheu e a partir de agora vai mudar de alguma forma tudo na sua vida, da melhor ou da pior forma, quando isso acontece, o que você faz? Dizia a mim mesma que não tinha escolhido essa doença, porque isso seria impossível, eu escolhi como viver a doença, porque isso foi o que me restou de autonomia depois que fui ao hospital naquela manhã de novembro em 2007. As noites chorosas sempre acontecem, até quando eu estava curada, era inevitável, como se uma parte de mim ainda estivesse presa demais a parte doente. Disse a psicóloga certa vez, antes do segundo diagnóstico, que eu estava curada mas em vários momentos não me sentia curada, e isso doía mais do que estar doente, afinal Deus havia me dado o presente da cura, me sentia culpada. No dia da corrida na praia cobrei do meu corpo mais do que ele suportava, e de vez em quando cobro mais dos pensamentos do que eles suportam. Das lições de paciência que tive até agora, a mais dolorosa tem sido esperar pelo segundo transplante... é melhor pegar o limão e fazer uma limonada:)

>>Entro no shopping, o destino é o cinema, mas o caminho é repleto de situações constragedoras. Entro no elevador, de máscara obviamente, e dentro está uma grávida, ela olha pra mim e faz uma cara aterrorizantemente constrangedora e pergunta se eu estou gripada, isso enquanto se encosta no cantinho do elevador, aparentemente procurando uma passagem secreta com as mãos. Primeiro obstáculo superado. Vou comprar o lanche, a senhora do caixa do lado olha pra mim, se afasta, e também pergunta se estou gripada, a ainda dá pitaco sobre o tipo de máscara que eu tenho que usar.

A essa altura do campeonato, ninguém merece.


"E disse-me: A minha graça te basta, porque o meu poder se aperfeiçoa na fraqueza. De boa vontade, pois, me gloriarei nas minhas fraquezas, para que em mim habite o poder de Cristo." 2 Coríntios 12.9

Mania de pés
Parte 2